domingo, 13 de janeiro de 2008

As Origens

“Então disse Deus: Façamos o homem, que seja a nossa imagem, segundo a nossa semelhança” Gênesis 1.26. Um misto de epher, dam, marah (pó, sangue e bile) deu vida a Adão, o primeiro homem. Em princípio, um ser androgginos, macho e fêmea: “E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” Gênesis 1.27. No Livro do Esplendor – o Sepher Há-zohar – é citado: “Rabi Abba disse: O primeiro homem era macho e fêmea ao mesmo tempo, pois a escritura diz: E Elohim disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gen. I, 26). É precisamente para que o homem se assemelhasse a Deus que foi criado macho e fêmea ao mesmo tempo (...) Nós deduzimos que cada figura, que não apresenta em si o macho e a fêmea, não se assemelha à figura celeste. (...) Recorde-se que o Senhor ... não permanece onde o macho e a fêmea não estão unidos (...) O macho não merece o nome de homem, enquanto não está unido à fêmea”. Em seguida, Adão é mais que um ser andrógino, mas torna-se um ser hemafrodita, com duas faces, dois orifícios, que goza de dois mundos, um ser bifronte. Nesta fase, Adão ignora a alteridade sexual, ele tem natureza animal, e se acasala também com animais.

Num terceiro momento, o primeiro homem aparece dotado de alma e reconhece a necessidade de mulher. “O homem deu então nome a todos os animais, às aves do céu e a todas as feras. Mas o homem não encontrou uma auxiliar que lhe fosse semelhante.” (Gênesis 2.20) Adão havia conhecido todos os animais no acasalamento, assim, entendeu a necessidade da diferenciação.

É subentendido, nessa androginia, a existência de um casal. “Homem e mulher ele os criou, os abençoou e lhes deu o nome de “Homem”, no mesmo dia em que foram criados” Gênesis 5.2. Eva aparece como a segunda, que toma o lugar da primeira: “Desta vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne” Gênesis 2.23. Essa exclamação seria porque desta vez é uma fêmea humana e não uma fêmea animal ou porque realmente existiu a primeira fêmea humana, criada junto a Adão e não a partir dele? Segundo o Comentário do Beresit-Rabba: “R. Jehudah em nome de Rabi disse: No princípio a criou, mas quando o homem a viu cheia de saliva e de sangue afastou-se dela, tornou a criá-la segunda vez, como está escrito: “Desta vez. Esta e aquela da primeira vez”. “ Na criação de Lilith está implícita a perda da unidade mágico-religiosa dos dois sexos na pessoa única do “homem”. Seu nascimento se encontra nos dias da Gênese. Lilith nasce após Adão, no final do sexto dia. Por ser um mito arcaico anterior ao mito de Eva, pode-se dizer que ela foi a primeira companheira de Adão. Porém, Lilith já nasce como um demônio, um espírito que ficou informe porque Deus descansou – era o fim do sexto dia – antes de lhe dar um corpo. Lilith é coberta de sangue e saliva, símbolo do desejo. Durante as poucas horas do sexto dia e de todo o Sábado Adão consumiu sua relação com Lilith. A primeira relação de amor entre essas duas criaturas, possivelmente como descreve o Cântico dos Cânticos:

Como és bela, minha amada,

Como és bela!

Seus olhos são como pombas.

Como és belo, meu amado,

E que doçura!

Nosso leito é todo relva.

As vigas da nossa casa são de cedro,

E seu teto, de ciprestes.

O primeiro homem e a primeira mulher se unem cara a cara, diferente dos outros seres. Mas o amor dos dois foi logo perturbado: Lilith se mostrava impaciente com a posição natural – a mulher por baixo e o homem por cima. “Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por você? Contudo eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.” Adão nega e a submete. Lilith não aceita essa imposição e se rebela. Adão é tomado pela sensação de abandono. O sol se põe e ele sente medo da escuridão. Ele perdeu Lilith. Lilith voou para as margens do Mar Vermelho, profanou o nome de Deus e confirmou-se como demônio.

Jeová Deus proferiu sua ordem: “O desejo da mulher é para o marido. Volta para ele”. Mas Lilith recusa: “Não quero mais ter nada a ver com meu marido”. Jeová Deus insiste: “Volta ao desejo, volta a desejar teu marido”. Sua natureza mudou quando Lilith blasfemou contra Deus. Ela não é mais a esposa de Adão, é o demoníaco manifesto.

“Lilith, para nós, nasce, talvez, do sonho ou da narrativa dos Rabis, nasce de uma necessidade ou de uma fantasia coletiva” (Roberto Sicuteri). Essa é a origem do ser humano, macho e fêmea, segundo as versões bíblica, judaica e rabínica.

“Desde o início de sua criação, foi somente um sonho”. (Rabi Simon Ben Laqish)


Fonte: Sicuteri, Roberto. "Lilith, A Lua Negra". Paz e Terra, São Paulo, 1990.

2 comentários:

Mariana disse...

Ei, Pri...
vou usar isso no meu trabalho de exegese. è justamente este texto de Gn 1:26-31.
Muito Obrigada!! rsrs
abraço,
Mariana

higor disse...

Ola tudo bem?
adorei ler este blogger
ao lelo pude pensar e compreender a importancia de sua busca por "direitos feministas", ainda acho que estas coisas deveriam ser naturais, ao meu ver são dons, num importa cor, sexo, classe......
mas lelo me fez pensar a respeito da importancia por igualdade, da necessidade desta luta.......
parabens e boa sorte, sabe que como disse vou continuar a apoia-la, mas lembra que o importante é o você eo que Deus fez através de sua vida e as vidas para as quais vc foi instrumento......titulos, são apenas titulos, assim como o reconhecimente num torna ninguem melhor!



=*